Secções
  Entrada UESP Notícias & Eventos Nós na Imprensa Equipa portuguesa leva "Casas em Movimento" a Madrid
Acções do Documento

Equipa portuguesa leva "Casas em Movimento" a Madrid

No lote um da 'Villa Solar', onde irá decorrer a edição deste ano do Solar Decathlon Europe, o português será uma das línguas faladas, uma vez que será aí instalada a casa solar da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. O protótipo "Casas em Movimento" destaca-se por rodar em torno do seu eixo, além de integrar as tecnologias solares numa enorme pala movível.

Com uma produção energética auto-sustentável, a casa solar que a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) vai levar a Espanha destaca-se pela sua arquitectura bem inovadora. A estrutura é em madeira, com revestimento em cortiça, dois materiais (de origem nacional) que têm uma grande capacidade de isolamento térmico e acústico.  

Contudo, a maior inovação está nos movimentos estruturais que a casa possibilita. Em primeiro lugar, há que contar com a enorme pala movível que a cobre e que tem várias funções. Tal como explica Manuel Vieira Lopes, o estudante da FAUP que impulsionou e lidera esta ideia, "fez-se uma espécie de pele [a pala movível] que reveste a habitação, a protege e alimenta". Neste último aspecto, a alimentação está ligada com o facto importante de que "essa pele é feita de painéis fotovoltaicos e colectores solares". Esta decisão acabou por estar ligada à "preocupação de integrar os painéis fotovoltaicos", em vez de os colocar "como se fossem apêndices em cima das habitações".  

Destacando-se pela sua imponente cor negra - por via dos painéis -, a cobertura assemelha-se, quando vista de longe, a uma grande mesa invertida. "A pala faz um movimento em que se sobrepõe a uma das fachadas, permitindo sombreá-la. Com isto, temos um ganho térmico entre os 60 e os 80 por cento", salienta Manuel Vieira Lopes. Além do mais, quando se move consegue criar um espaço exterior coberto, em que estamos debaixo da sombra".  

Por sua vez, o outro movimento do protótipo consiste em ter a casa a rodar sobre o seu eixo, como se fosse um girassol que procura ficar de frente para o Sol. "Durante o Inverno, isto permite que o Sol incida nas fachadas e janelas, fazendo com que se aqueça o interior da habitação".  

Deste modo, consegue-se fazer um aproveitamento térmico e criar espaços diferentes na casa. "A casa, ao girar em tomo de si, permite uma poupança energética muito grande, pois aproveita a luz solar que incide ao longo do dia. Além de que se pode acordar a ver o nascer do Sol e, ainda, ir para a cama vendo-o a pôr-se."  

Polivalência e adaptabilidade  

Olhando para as duas fachadas principais da casa, destaque ainda para as diversas lâminas (palas) que aí serão colocadas na vertical, as quais fecham ou abrem quando for mais conveniente. "Durante o Verão, elas fecham para o lado em que está o Sol e abrem no lado que está em sombra, para permitir que o ar fresco entre e climatize de forma passiva o interior da habitação". Quando chega o Inverno, "é o contrário", deixando que a luz solar incida nas fachadas.  

A capacidade de adaptar a habitação às circunstâncias que o futuro traz não foi esquecida, razão pela qual o seu interior é modular, sendo possível acrescentar novas divisões ou eliminar algumas. Apesar de poder "crescer em função das necessidades", existe "uma preocupação estética", de forma a garantir que se mantenha aprazível para quem aí viva.  

Todas estas possibilidades, em conjunto com os seus movimentos estruturais, criam uma "polivalência e mutação nos espaços da casa", na medida em que eles serão diferentes ao longo do dia. Deste modo, é perfeitamente normal que o espaço que serve de quarto durante a noite se transforme em escritório durante o dia.  

Mas a polivalência não se encerra no interior da habitação. De um modo geral, toda a casa pode adaptar-se a qualquer local, pois o seu sistema de movimentação permite que esta possa ser aplicada em qualquer parte do país ou até do globo. Aliás, e em teoria, quem quiser mudar de casa só teria de comprar um novo lote de terreno, desmontar a casa e voltar a montá-la no novo local.  

Não é teoria... é realidade  

Apesar de só agora se dar a conhecer, o protótipo já está a ser desenvolvido pela FAUP desde 2008, bem antes da candidatura ao Solar Decathlon Europe (SDE) 2012. Esta aventura só começou quando Manuel Vieira Lopes foi a Madrid em 2010 para visitar a primeira edição do SDE no continente europeu, conhecer melhor a competição e o tipo de projectos que lá estavam. "Em seguida sensibilizei a faculdade, submeti a candidatura e o resultado está à vista, somos uma das 20 a nível mundial", sintetiza.  

Infelizmente, o regulamento da competição não permite que haja movimento nas casas solares, pelo que o protótipo do Porto não poderá demonstrar o funcionamento da pala. No entanto, esta potencialidade será exemplificada no evento através de diversas animações.  

Apesar de tudo, será possível aos mais curiosos ver este projecto em acção. Um protótipo totalmente funcional está já a ser construído numa das encostas do rio Douro, naquela que será uma prova cabal de que tudo "isto não é teórico, consegue-se fazer na realidade".  

A colaborar com a FAUP, para materializar o projecto Casas em Movimento, surgem três institutos nacionais: o Instituto de Engenharia Mecânica e Gestão Industrial (INEGI), o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto (INESC TEC) e o Laboratório Nacional de Engenharia e Geologia (LNEG), tendo a ADENE apoiado a iniciativa desde que teve conhecimento da sua existência.

Arquitecturas, 1 de maio 2012