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Aparelho português ajuda vítimas de AVC no Reino Unido

O Walkinsense foi originalmente concebido para patologias do pé. No Reino Unido, está agora a ser testado na auto-reabilitação de vítimas de AVC

Pesa cerca de 70 gramas, usa-se no tornozelo e pode ser levado para casa. O dispositivo Walldnsense, concebido pelo spin-off Tomorrow Options (da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e do INESC Porto), foi criado para a prevenção de patologias do pé, como o pé diabético, mas poderá ser adaptado para qualquer monitorização dos membros inferiores. Um consórcio que reúne várias universidades britânicas já está a experimentar o Walkinsense em vítimas de acidente vascular cerebral (AVC). Por cá, assinala-se hoje o Dia Nacional do Doente com AVC, sublinhando-se a importância da reabilitação após o acidente, mas o dispositivo não deverá entrar no mercado português tão cedo.

Os números oficiais da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC) apontam para duas mortes por hora em Portugal. Porém, Castro Lopes, presidente da SPAVC, admite que a relação de 200 vitimas mortais por 100 mil habitantes pode não corresponder à realidade. "Deverá ser menos do que isso, à volta dos 160. A diminuição está relacionada com as certidões de óbito", refere, explicando que algumas mortes antes atribuídas a "morte natural" ou "senilidade" são hoje associadas a um AVC. Ainda assim, Castro Lopes insiste que o AVC "é uma catástrofe mundial", mantendo-se como uma das principais causas de morte e incapacidade nos países industrializados. "As pessoas ainda não têm noção dos factores de risco, dos tratamentos e prevenção e dos sinais de alerta", avisa, realçando a importância da reabilitação após um AVC. "Há muitos doentes que se queixam de não serem acompanhados pela reabilitação, que não pode ser uma esmola, tem de ser contínua. Por toda a vida, se preciso for", esclarece. As falhas na reabilitação podem, entre outras complicações, levar a dores nos membros afectados e problemas graves nas articulações.

O Walkinsense responde a uma parte desse problema e já está a ser testado no Reino Unido. "A Universidade de Ulster, do consórcio britânico The Smart Consortium, deverá fazer uma demonstração dos resultados em Abril", adianta Paulo Santos, da Tomorrow Options. A ideia é ter um aparelho portátil que, com um software muito simples, permite que a vítima de AVC continue a reabilitação em casa, após a alta. Os dados da actividade são transmitidos para o médico, que avalia os progressos e ajuda o doente a corrigir os movimentos. A monitorização é feita no membro afectado e no que não foi afectado. "É uma ferramenta única que fornece informação muito específica", diz Paulo Santos, adiantando que o Walkinsense pode ser adaptado para os membros superiores e para outras patologias.

Mas a aposta do spin-off está no Reino Unido. "Em termos de estratégia comercial seria um suicídio vender este dispositivo [que custa cerca de 2800 euros] aos hospitais portugueses, que, na última vez que verifiquei, estão a pagar a uma média de 265 dias", argumenta Paulo Santos. Assim, por cá, apenas existe um Walkinsense vendido ao Centro de Reabilitação e Medicina Física de Alcoitão. A versão inicial dedicada a patologias do pé, desenvolvida em 2007, deverá ser vendida este ano aos hospitais britânicos, tendo sido produzidas já 500 unidades.

Público, 31 de Março, 2010

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