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Magpower quer instalar 22 MW até 2011
No ano de arranque da empresa, a caixa fechou com pouco mais de um milhão de euros, mas num mercado «efervescente», as perspectivas para o futuro são «incríveis» e o clima que se vive na sede da Magpower é de grande optimismo. Apesar da crise, e em contraciclo económico, a empresa espera multiplicar por dei a facturação, já em 2010, e voar bem alto nos anos seguintes, exportando tecnologia portuguesa para todo o mundo.
As células, usadas nos satélites espaciais, vêm dos Estados Unidos, a lente de fresnel, que concentra 800 vezes a luz solar, é polida à mão na China, e o sistema é completamente montado na fábrica da Magpower, em Sintra, para depois seguir para destinos tão distantes no mapa como África do Sul, Israel ou Itália. Ainda que Pedro Falcão e Cunha, sócio-gerente da Magpower, se orgulhe de dizer que a solução de produção de energia solar que a empresa comercializa é cem por cento portuguesa, rapidamente se percebe que o seu alcance é global.
«Tudo o que é possível, fazemos cá em Portugal», garante o gestor. Na fábrica da empresa de 7200 m2, em Sintra, que, desde Agosto, tem capacidade para produzir 50 MW por ano, os robôs motorizados e desenhados à medida agregam os diferentes componentes deste sistema fotovoltaico de concentração baseado em células trijunção III-V e lentes ópticas de concentração em fresnel. A tecnologia inclui ainda um seguidor de alta precisão que acompanha o movimento diário do Sol, captando o máximo possível de radiação solar directa.
No ano de arranque, em 2009, a Magpower facturou cerca de um milhão de euros, mas, para este ano, a empresa tem programada a implantação de cerca de 3 MW, o que corresponde a uma facturação de perto de dez milhões. A maioria dos contratos, já assinados ou em fase avançada de negociação, dizem respeito a pequenas instalações, mas lançadas por promotores com grandes projectos no terreno, o que faz o gestor da Magpower augurar um futuro risonho para a tecnologia. A perspectiva é, até 2011, instalar entre 20 MW e 22 MW.
Com um nível de concentração da energia solar 800 vezes superior a um painel convencional em silício, o grande trunfo desta tecnologia reside no rendimento das células, que permitem atingir níveis de eficiência da ordem dos 40 por cento. Na comparação com os painéis tradicionais, o sistema possui ainda a vantagem de suportar melhor temperaturas elevadas e de o processo de degradação das células no tempo ser mais lento. Desta forma, a empresa consegue assegurar um custo de energia competitivo por kW e uma taxa de eficiência acima da média. «A nossa célula é 500 vezes mais cara, mas 800 vezes mais eficiente», resume o empresário.
Além disso, a célula representa apenas 15 a 20 por cento do custo total do sistema. Reduzindo-se, assim, a dependência do mercado do silício, que representa a principal fatia do custo de um painel tradicional, a empresa ganha margem de manobra para baixar o preço de venda ao cliente nos próximos anos. «No fim de 2012, vamos conseguir baixar em quase 50 por cento o preço» do sistema, assegura Pedro Falcão e Cunha, lembrando que a prática de tarifas subsidiadas «não se pode manter por muito tempo» e que são as tecnologias que conseguirem atingir mais rapidamente a paridade com a rede que vingarão no médio/longo prazo.
«Este tipo de actividade é absolutamente dependente da investigação. Temos clara noção de que estes produtos têm uma vida útil de muito pouco tempo», observa o gestor. «Os custos têm de baixar e têm de aparecer coisas novas.» Nesse sentido, a empresa já um projecto de investigação em curso com o INESC Porto e a EDP centrado na eficiência das células, que mereceu o apoio do Quadro de Referência Estratégico Nacional no valor de um milhão de euros.
Por todo o mundo
Os projectos em carteira percorrem as mais diversas latitudes, da Ásia aos Estados Unidos, passando pelo continente africano.
Entre os contratos já formalizados, está a instalação de um pequeno projecto em Masdar, a cidade carbono zero localizada em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. São apenas 100 kW, mas estarão lado a lado com outras seis tecnologias, que foram seleccionadas como as mais promissoras, a nível global, na área do fotovoltaico de concentração. «É uma montra para todo o mundo», realça Pedro Falcão e Cunha. No fim do Verão, o projecto deverá ficar concluído.
Do outro lado do globo, a empresa está a trabalhar «em força» nos Estados Unidos da América, mais concretamente no estado da Califórnia, onde há perspectivas de crescimento animadoras. Os objectivos do governo norte-americano passam pela incorporação de 20 por cento de renováveis na energia eléctrica e, na Califórnia, não há muitas alternativas à energia solar. Por isso, a Magpower vai construir uma fábrica de assemblagem de painéis solares neste estado norte-americano, com uma capacidade de produção anual de 50 MW, tendo já seleccionado o local, alinhavado o projecto e aguardando apenas um financiamento local de apoio. No segundo semestre de 2011, esta unidade pode ser uma realidade.
A partir deste contacto com investidores norte-americanos, a empresa agarrou outro mercado, o israelita, onde já foi concretizada uma aliança com uma empresa local e está a ser fechado um contrato para a localização de uma central de um MW, que poderá arrancar «nos próximos dois ou três meses». Em carteira, estão mais «quatro ou cinco projectos» a aguardar financiamento. «E um mercado interessante, mas com algumas limitações», descreve Pedro Falcão e Cunha, apontando essencialmente problemas de localização das centrais, dado que os terrenos neste país são públicos, podendo apenas ser concessionados, com rendas definidas em função da actividade instalada.
No mercado chinês, a empresa está a tentar entrar através de Macau. O gigante asiático tem igualmente metas ambiciosas, pretendendo incorporar 30 por cento de renováveis na produção de electricidade nos próximos dez anos. Também aqui a Magpower já identificou uma empresa local como parceira e realizou contactos em quatro províncias do Norte do país. A transferência de tecnologia está a ser promovida através de um protocolo com a Universidade de São José, e a empresa tem tentado mobilizar o interesse do governo local para a criação de mestrados na área do solar. «É impensável fazermos alguma coisa na China se não houver uma transferência grande e interesses chineses envolvidos», observa o responsável.
A África do Sul é outro país a que a empresa está atenta, até porque, em termos de radiação solar, as condições são mais do que óptimas. «Há zonas onde esta tecnologia consegue fazer três mil horas por ano», exemplifica Pedro Falcão e Cunha, o que assegura «rentabilidades altíssimas», a partir dos 30 por cento, para os investidores, dadas as tarifas favoráveis praticadas neste país africano. Talvez por isso, neste caso, a Magpower irá avançar com licenças próprias para a promoção de uma central solar de 15 MW, estando apenas a aguardar a aprovação, já em curso, de alterações ao quadro legislativo local. «Julgamos que até ao final do ano teremos as licenças», acredita o gestor.
A empresa está ainda envolvida na promoção de outros parques, em consórcio com outros promotores portugueses, bem como um «grande grupo industrial sul-africano» representando um total de 50 MW.
Ainda no continente africano, a empresa integra um agrupamento de empresas portuguesas e estrangeiras que estão interessadas num projecto de 500 MW lançado pela Agência de Energia de Angola. Um «projecto enorme», já que esta é apenas a primeira de quatro fases de dimensão equivalente, ainda que nem toda a área ficará afecta a fotovoltaico de concentração, estando prevista a instalação de outro tipo de tecnologias. «A nossa ideia é agregar neste consórcio outros interesses portugueses», salienta o gestor. A selecção das manifestações de interesse deverá ficar concluída em Setembro, altura em que serão avançadas as propostas definitivas.
O mapa da Magpower não se esgota aqui. A empresa está também a estudar oportunidades na Bulgária e a espreitar os mercados do eixo mediterrânico, nomeadamente o italiano e espanhol, onde a empresa está já a instalar um pequeno parque de 1,4 MW na zona de Cádis.
Em Portugal, estão a avançar «pequenos projectos», nomeadamente em Mértola. A tecnologia da Magpower foi uma das tecnologias seleccionadas pela Direcção-Geral de Energia e Geologia no âmbito de um concurso para ligação à rede de soluções fotovoltaicas e de solar de concentração entre 87 pedidos de informação prévia (PIP). No entanto, e desde a atribuição dos 15 projectos, anunciada em Março, ainda não foi adjudicada a obra nem definida a tarifa a praticar.
Para o gestor, a meta fixada pelo Governo para a energia solar, de 1500 MW, até 2020, é «ambiciosa». «São cinco mil milhões de investimento», soma, adiantando que «não faz sentido fazer uma única central, mas sim apostar no sector doméstico, porque Portugal é o país da Europa com maior radiação solar». Em complemento, poderão avançar pequenos parques solares, de 5 a 10 MW, em diferentes zonas do País. Apesar de estar de acordo com o rumo, Pedro Falcão e Cunha lamenta a falta de incentivos ao sector empresarial. «Este projecto é inovador, cria emprego, tem capacidade exportadora e está ligado às energias renováveis», realça, o gestor, mas «não tivemos um único apoio», para além de dois projectos destinados a financiar a investigação sobre a tecnologia, no valor de um milhão de euros. A empresa está agora a tentar angariar alguns apoios para a instalação de pequenas unidades de demonstração que lhe permitam afiançar a viabilidade da tecnologia. «É muito difícil criar start-ups em Portugal, faltam instrumentos e os que existem não se adaptam à realidade. A concretização de pequenas centrais que provem, no terreno, a eficácia desta tecnologia, vão funcionar como cartão de visita, até porque «a principal dificuldade» da empresa continua a ser a obtenção de financiamento para uma tecnologia não experimentada em período de crise económica. Para dar confiança aos investidores, a empresa tem angariado diversas certificações e está a concluir um esquema de seguros «inovador», que assegura a produtividade da tecnologia, cobrindo 95 por cento da produção de energia estimada.
Mas se, em tempo de crise, a vida da Magpower não tem saído facilitada, o espírito é de grande optimismo. «Este sector está efervescente», reforça o gestor e, nesta fase de arranque, «qualquer pequeno sucesso é uma festa». «Estamos cheios de projectos e as perspectivas de crescimento são absolutamente incríveis», afirma.
Água & Ambiente, 1 de Setembro, 2010