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O fim da anaconda

A investigação académica levou a Fibersensing a todo o mundo. Em 2010, a empresa atinge o break even e 2011 já deverá ser ano de lucros

Há sensores da Fibersensing em todos os continentes, exceto África. Os equipamentos desta empresa incubada no INESC Porto em 2004, descobrem-se, por exemplo, na ponte de Brooklyn, em Nova Iorque; em linhas de comboio de alta velocidade, na Holanda, e na barragem de Curitiba, no Brasil. A dispersão geográfica revela o sucesso dos equipamentos desenvolvidos e patenteados pela Fibersensing. Contudo, o verdadeiro orgulho de Sérgio Aniceto, presidente executivo desta sociedade sediada na Maia, são os contratos de longo prazo assinados com grupos de referência como a Siemens, Airbus, EDP, REN e Petrobras. "Na ponte de Broklyn tenho 20 sensores que custam uns 20 mil euros. Uma das muitas soluções que vendo para a Siemens pode valer 70 mil euros ou 300 mil para a Airbus", explica Sérgio Aniceto. O que atraiu estes clientes? A Fibersensing cria sensores de monitorização de temperatura, deformação, pressão, aceleração, deslocamento ou deformação, utilizando a tecnologia FBG - Fiber Bragg Grating. "Os sensores convencionais estão associados a um cabo elétrico que vai ligar à unidade que os mede. São todos terminais. Esta nova tecnologia traz a vantagem de haver ao longo da mesma fibra ótica vários sensores. É uma solução mais limpa, menos complexa", explica Sérgio Aniceto.

O impacto destes novos sistemas de medição é evidente, por exemplo, na aviação. Até hoje, era tal a quantidade de sensores tradicionais utilizados nos aviões, que se chamava anaconda a esse gigante e pesado feixe de cabos. "Com esta tecnologia, os diferentes sensores estão todos numa mesma fibra. Podem estar distantes quilómetros ou milímetros. Enquanto o sensor elétrico precisa de eletricidade, o nosso só tem luz. Não há risco de ignição, posso pôr debaixo de um poço de petróleo, dentro do depósito de combustível dos aviões. É imune a campos eletromagnéticos e a rádio interferência." Trocar a "anaconda" pelas novas tecnologias significa, para empresas como a Airbus e as transportadoras aéreas, menos peso nos aviões, maior segurança e menor gasto de combustível.

Aqueles clientes são recentes, chegaram à Fibersensing há pouco mais de um ano. Revelam, acima de tudo, a mudança na estratégia desta empresa, até há dois anos muito dependente da construção civil e obras públicas. "A engenharia civil foi um mercado que até 2008 representava 78% da nossa faturação. Nos anos anteriores, essa componente tinha sido ainda maior", explica o gestor. A profunda quebra no sector da construção, tanto em Portugal como no estrangeiro, obrigou a Fibersensing a apontar agulhas noutro sentido. A área de eleição de Sérgio Aniceto e da sua equipa de 32 trabalhadores é, agora, a energia, desde a geração, à transformação e distribuição. Outros sectores na sua carteira de clientes são a aviação e investigação espacial. Foi junto de empresas de produção de energia eólica, sociedades que fazem o transporte de eletricidade e até firmas ligadas à exploração de petróleo e gás que a Fibersensing encontrou, em 2009, cerca de 87% do seu volume de negócios. Neste mercado "as condições de trabalho são melhores. As margens na engenharia civil estão esmagadas", explica Sérgio Aniceto. "Na energia não há a concorrência do [sensor] convencional e podemos desenvolver soluções como a que criámos para a Siemens." Mais importante, a conquista deste tipo de empresas dá à Fibersensing a capacidade de ter "vendas replicadas, volume e acordos de cinco anos com entregas planeadas".

Para chegar aqui foi crucial a pesquisa académica feita, durante anos, por alunos e professores da Faculdade de Engenharia do Porto. Três deles fundaram a Fibersensing e ainda ali trabalham: Francisco Araújo e Luís Ferreira são doutorados em Física Ótica, enquanto Alberto Maia é perito em engenharia eletrotécnica. A investigação e desenvolvimento encabeçado por estes especialistas parece ser o fator diferenciador da empresa face a concorrentes estrangeiras que usam a mesma tecnologia.

Desde o início, a firma portuguesa participou em feiras setoriais, um pouco por todo o mundo, e os seus especialistas fizeram palestras em diversos países. "As pessoas começam a ser conhecidas. Quando se sabe que empresas de referência não resolvem algumas soluções e a Fibersensing consegue, as pessoas passam a ser reconhecidas", constata Sérgio Aniceto. "A Airbus começou por trabalhar com uma concorrente nossa. Ao fim de um ano e meio de trabalho chegaram à conclusão de que eles não tinham capacidade de atingir aquilo a que a Airbus se propunha", lembra o gestor. A Fibersensing tem um sensor de deformação que, ao contrário dos sistemas convencionais, não precisa de um sensor de temperatura acoplado, ou seja, é atérmico e regula-se sozinho. Quando a Airbus teve conhecimento deste equipamento, chamou a Fibersensing. Após cerca de cinco meses de trabalho, a empresa portuguesa ganhou o contrato.

Sérgio Aniceto conta outro caso semelhante. "Temos clientes a que fomos bater à porta e clientes que vieram ter connosco, nomeadamente o maior que temos neste momento, a Siemens Power Generation. Eles precisavam de uma solução para os seus geradores de alta potência. Estavam a trabalhar com uma empresa norte-americana que é nossa parceira e, ao mesmo tempo, concorrente. Eles não conseguiram desenvolver a solução e viraram-se para nós."

A qualidade técnica desta empresa parece ser reconhecida internacionalmente, mas ainda não trouxe lucros. "Somos a empresa no mundo que tem um portefólio de sensores mais alargado. Temos concorrentes e parceiros que chegaram à conclusão de que não vale a pena desenvolverem sensores, quando precisam vêm ter connosco. O que nos dá uma projeção mundial grande", salienta Sérgio Aniceto. A Fibersensing atingiu este nível de especialização após 5 milhões de euros de investimento em investigação e desenvolvimento, instalações, equipamentos e contratação de pessoal qualificado.

No último ano, foram aplicados mais 500 mil euros para que a Fibersensing completasse a sua linha de unidades de medição. Dois desses equipamentos serão lançados ainda este ano no mercado. Um deles, chamado Extended Temperatures servirá empresas de petróleo, gás e eólica, visto que "permite operar a extremos de temperatura de -20 a 65 graus, enquanto os produtos convencionais variam entre 10 e 50 graus. Ou seja, pode trabalhar num poço de petróleo no deserto ou no Ártico", explica Sérgio Aniceto. É com esta base de produtos para comercialização que a Fibersensing pretende fazer de 2011 o primeiro ano de lucros. Em 2010, a empresa gerida por Sérgio Aniceto deverá registar um volume de negócios próximo dos 2 milhões de euros, o que permitirá atingir o break evenpoint, ou seja, "a empresa pela primeira vez vai gerar as mais-valias necessárias para se manter."

A Fibersensing exportará este ano, 95% da sua produção. "A empresa não nasceu para trabalhar o mercado doméstico, nasceu de forma global para tentar encontrar clientes de referência mundial." Além da tecnologia inovadora, esse terá sido um dos argumentos que levou a Inovcapital, sociedade de capital de risco estatal, a transformarse no acionista maioritário da empresa, logo em 2004.

Um investimento que, em condições normais de mercado, estaria "numa fase de venda". No entanto, segundo Sérgio Aniceto, o principal investidor da Fibersensing "crê que a empresa pode valer mais daqui a dois anos do que hoje". Mais do que paciente, diz o gestor, a Inovcapital "foi perspicaz, entendeu que a tecnologia é muito nova, requer evangelização, e a conjuntura não ajudou". Aliás, o investimento no crescimento da empresa não acabou. Para responder aos novos clientes e ao aumento da procura, esta sociedade terá de contratar mais funcionários para a produção e de recrutar novos parceiros que, "na sua área geográfica fazem a promoção, venda e instalação das nossas soluções".

Exame, 1 de Dezembro, 2010

 

 

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