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Pôr a escola no ecrã
Verter a lógica da escola real para o espaço virtual é o que faz a plataforma Escolinhas.pt. Destina-se ao 1.º e 2.° ciclo do ensino básico e quer ser um lugar seguro. Por isso, só lá entram alunos, professores e encarregados de educação. Para aprender, trabalhar e brincar. No ecrã.
A simplicidade é a grande aposta dos responsáveis pela plataforma educativa Escolinhas.pt. "Basta as crianças saberem ler e já conseguem fazer muita coisa com as ferramentas que disponibilizamos", diz Ademar Aguiar, autor da "ideia-base de wiki escolar para crianças do ensino básico".
Ao dizer "muita coisa", este professor da Faculdade de Engenharia da Faculdade do Porto está a referir-se a "ler, escrever, pintar, desenhar, calcular, raciocinar, colaborar, brincar, partilhar e comunicar com os colegas de escola, amigos, encarregados de educação e professores", como é descrito no Bl Escolinhas 2011. Tarefas desempenhadas de forma supervisionada. Sempre. Ademar Aguiar não gosta de falar de "perigos da Internet", prefere focar-se "no potencial e nos desafios que [esta] traz para os pais e para os miúdos". E afirma que a "colaboração e partilha" são os conceitos principais da plataforma, daà oferecer "um conjunto de funcionalidades tÃpicas da Web 2.0 e Web Social (wiki, bloque, chat, rede social, microblogging, correio electrónico, classificação, etc.), especialmente seleccionadas e adaptadas aos ambientes escolares do 1.° e 2.° ciclo do ensino básico, de forma a serem de elevada usabilidade e simplicidade de aprendizagem".
Mais "dias abertos"
Foi justamente a vontade de partilhar que fez nascer esta ideia. No final do ano lectivo de 2005, o também investigador no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores do Porto, foi ao "dia aberto" da escola da sua filha, então com sete anos.
É o momento em que as escolas abrem as portas aos encarregados de educação e em que estes ficam a conhecer os trabalhos que os educandos fizeram durante o ano. "Eu, que até me considerava um pai atento, fiquei entusiasmado com tudo o que eles fizeram e que não pude acompanhar. Fascinei-me também com os trabalhos dos outros alunos. Apercebi-me de que havia ali um espaço para fomentar mais 'dias abertos' e de comunicação entre os pais. A ideia da partilha interessa-me, não só como pessoa, mas profissionalmente."
Também ficou agradado com um trabalho apresentado por uma estagiária: "Fez uma recolha de histórias contadas pelos avós e pelos pais das crianças e compilou os textos com os miúdos. Deu origem a um livro, a um site e a um CD. Achei interessante, mas, para a professora, foi tecnologicamente muito difÃcil. Eu não percebi a razão por que era assim tão complicado."
No entanto, começou a pensar em como tornar tudo mais simples. "Em vez de esta ligação resultar de um trabalho de um ano e com apenas um dia aberto, vamos fazer com que a partilha aconteça o maior número de vezes possÃvel, que seja uma prática comum ou até diária."
A partir daÃ, já não parou de pensar no assunto: "Como é que se faz em termos de envolvimento social e dos pais? É preciso criar uma ferramenta fácil e pegar no espaço da escola, que acaba por ser um pouco fechado aos pais. Lá, acontecem coisas muito interessantes. Afinal, o que desencadeou todo o processo foi essa surpresa com tudo o que se faz na escola e os pais não chegam a saber nem a ter oportunidade de participar."
Desprezados na tecnologia
Considerando este grupo etário (6-12 anos) como "uma audiência muito particular e um bocado desprezada nas tecnologias, no sentido em que existe tanta coisa e não se faz nada directamente para eles", achou que poderia dar o seu contributo. "A minha costela de academia fez-me pensar: como é que eu posso ajudar nisto sem prejudicar o estado da arte e sem me envolver a 100 por cento?" E a ideia da plataforma foi amadurecendo. "Foi mais ou menos aceite entre os pais amigos e também por alguns professores, que aderiram com facilidade. Fizemos várias experiências 'a brincar'. No fundo, quis adaptar aquilo que eu conheço a esta realidade. Foi esse o desafio." Para perceber se fazia sentido, contou com algumas "cobaias" familiares.
"O salto de um protótipo inicial para algo com uma audiência maior aconteceu no contexto do projecto Porto Digital, que procurava projectos diferentes para a cidade do Porto, no âmbito da sociedade de informação. Ficaram fascinados com esta ideia para as crianças e a partir daà fizemos um protótipo muito mais sério."
Começaram com um projecto-piloto em quatro escolas, em que conseguiram financiamento para "o design, toda aquela parte que nós não sabÃamos fazer. Cerca de 10 mil euros, mas foi suficiente para contratar pessoas". Depois, em vez de apenas quatro escolas, pediram-lhes que chegassem a todas as escolas do Porto. Mas já não havia mais financiamento. "E esse foi um bom problema", conta divertido. "Dizer que não à s escolas era mau, dizer que sim e não ter mais dinheiro era uma aventura... Tinha, na altura, alguns alunos free lancers que me desafiaram a criar uma empresa."
Em 2008, nasce então a Tecla Colorida, com os parceiros Mário Lopes e Nuno Baldaia, ambos engenheiros informáticos. Em 2009, passam a contar com um novo sócio, a empresa Dueto.
Pagar e não pagar
À versão inicial gratuita (free) foi acrescentada uma versão mais desenvolvida, "que se justificasse pagar" (premium). O segundo ano foi então de afinação "do modelo comercial, de negócio e também do modelo tecnológico".
Em Setembro de 2010, pensaram que conseguiriam que mais escolas aderissem à plataforma. "Entrámos numa fase experimental entre Setembro e Dezembro e foi uma má altura. Ficámos um bocadinho decepcionados. Mas continua a valer a pena." Até porque o objectivo é avançar para o mercado internacional.
No entanto, têm 220 estabelecimentos de ensino registados na Escolinhas.pt., embora a utilizar com regularidade apenas 50. "Algumas ainda não entraram este ano." A concentração geográfica é mais a norte do paÃs. Não usam "força de venda", "não temos vendedores", diz Ademar Aguiar. A difusão faz-se por "passa-palavra". Têm escolas públicas e privadas como clientes. "As privadas só querem premium. Mas ainda não conseguimos convencer toda a hierarquia a aderir. Nas públicas, temos de todos os casos. Escolas que telefonam e querem premium, outras que querem free. Há mais em free do que premium." Mas reconhece, bem-disposto, que não estão arruinados.
Dia de Escolinhas.pt
A versão premium, "mais sofisticada e com propostas mais difÃceis", é a que Fernando Araújo usa na escola da EB1JI de Magarão (Agrupamento de Avintes), com os seus alunos do 2.° ano. "As duas colegas que trabalharam com a Escolinhas no ano passado ganharam um licença premium. É a que usamos." Um sucesso junto dos miúdos, conta entusiasmado.
O professor explica o método que utiliza: "Todos os fins-de-semana os miúdos levam um trabalho para casa, um tema qualquer para desenvolver com a ajuda dos pais. Depois, transpõem-no, por exemplo, para o processador de texto da Escolinhas.pt." Os temas podem ser, por hipótese, "se eu fosse muito alto, se eu fosse uma empresa, se eu fosse Presidente da República... mas também sobre alguma área do Estudo do Meio ou outro assunto que surja no decurso das aulas". No regresso de fim-de-semana, na segunda-feira à tarde, ligam-se à Escolinhas e vertem para lá o que realizaram antes.
E gostam? "Se houver algum dia em que eu me lembre de os castigar e não houver Escolinhas ou não puderem usar o Magalhães, é o fim da escola!", diz entre risos. "Estão a semana toda à espera da segunda-feira, o único dia destinado a esta prática."
Fernando Araújo está satisfeito com os resultados: "Os miúdos têm evoluÃdo em várias vertentes: na componente informática, ganham essa competência, e ao nÃvel da expressão escrita e da criatividade." Tem funcionado bem, ressalva, "porque têm computadores novos e podem estar todos a trabalhar ao mesmo tempo, pois, no resto da escola, 40 por cento dos alunos já têm os Magalhães avariados".
Os alunos, com idades à volta dos sete anos, não recorrem só ao processador de texto, "usam várias funcionalidades". Uma das preferidas é enviar mensagens aos amigos (que estão na mesma sala) ou para o docente. "Está tudo bem, professor?", perguntam-lhe "virtualmente". Embora estejam frente ao seu nariz.
Aconselharia outras escolas a usar o Escolinhas.pt? "A informática, para eles, é sempre mais apelativa e se for uma ferramenta didáctica, como é o caso, melhor. Todas as aplicações, mesmo os jogos, são vocacionadas para a aprendizagem, da Matemática e de outras áreas do saber. É bom que contactem com conteúdos que não são 'perigosos'. Ea plataforma é segura. Pelo menos, até agora."
Avintes é um meio humilde, diz quando a Pública lhe pergunta sobre a participação dos pais: "O meio onde trabalho é limitado. Só dois miúdos é que têm acesso à Escolinhas fora da escola. Para os outros, praticamente o único sÃtio em que têm acesso à Internet é na escola. Alguns só podem mexer no computador quando estão lá. Os pais não deixam que usem o Magalhães em casa."
Amanhã, podem. Em Avintes, a segunda-feira não é só dia de escola. É dia de Escolinhas.
Público, 13 de Março de 2011